40 ANOS DE HISTÓRIA DO SURF EM SALVADOR


(por Miguel Brusell - Revista Expresso, Edição 33 , 1998)
Adaptações por Guiga Matos


Material cedido pela Federação Baiana de Surf.

Não dá para saber o ano exato em que as pessoas começaram a descer as ondas no litoral baiano, sabe-se apenas que o surf começou a ser praticado no início dos anos 60, período fértil de criatividade e de muitas mudanças de comportamento na sociedade. Época das revoluções, da ditadura, da contracultura, do surgimento da pílula anticoncepcional e dos rebeldes com causas.

Segundo Lapo Coutinho, que viveu intensamente essa época, "a Bahia era tranqüila, cheia de energia e de vida. Vivíamos preparando os carros para paquerar no Farol da Barra, quando rolavam alguns 'pegas'. A grande pedida era ir ao Porto da Barra para ver as gatas, os artistas da época e o pôr-do-sol na balaustrada. As grandes festas de Salvador eram nos bailes de Carnaval no Bahiano de Tênis e no Yate Club. O Carnaval de rua - que era só na Avenida Sete - e nas boates Anjo Azul, Casa de Pedra, Berro D'água e depois a Maria Phumaça, que literalmente virou fumaça em um incêndio.

Popó Avena Pertencer a uma turma de bairro era um grande sinal de prestígio e a rivalidade entre elas era o combustível de diversas brigas. Dançar coladinho, com calça 'boca de sino', a camisa sem manga e com umbigo de fora, era o que tinha de mais fashion em termos de moda. O futebol do Chopp-Chopp e Alo Beleza no Bahiano de Tênis e depois o Musa, o Santos e o Gute-Gute na Associação Atlética eram as melhores opções esportivas da cidade. O sorvete na Ribeira, o bolinho da Cubana com o maltado, o chopinho no Edifício Oceania, o refresco do Fino Real. Os hippies, os cabelos longos, paz e amor, podes crer, é isso aí bicho, a jovem Guarda e o rock and roll. O início do surf com suas marés de março previsíveis, enormes e consistentes, são coisas que não saem da memória de quem viu o surf nascer na Bahia. Salvador era uma grande família naquela época e toda a classe média se conhecia", nos conta Lapo Coutinho.

Muito antes de chegar a primeira prancha de verdade, a galera já improvisava, inspirada em filmes havaianos. Valia de tudo: portas, troncos de coqueiro, pequenos barcos a motor, câmaras de pneus de tratores, pedaços de isopor, qualquer coisa que boiasse era usada como prancha. Naquela época havia até "fabricantes" por aqui. Alberto Capelotti e Jairo Zolienguer fabricavam e comercializavam pedaços de madeirites colados. O único inconveniente era que não flutuavam. O "atleta" tinha que carregar a "prancha" até o outside e ela só flutuava quando embalava na onda.

Os primeiros a ter uma prancha de verdade foram os irmãos Muller. Sobre a época, Alberto relembra: "A primeira prancha da Bahia foi uma Greg Noll enorme. Quando chegou pesava cerca de 14 quilos. A prancha parecia o corredor de uma casa. Você podia andar bastante em cima dela". Isso foi em 1963. Para ele, o surf na Bahia começou na praia do Corsário. "Era uma aventura. Nós pegávamos o velho Aero Willys de meu pai e íamos 'pranchar' na Praia do Corsário. Íamos, eu e meu irmão Jorge, que tinha uma Kiok de 2,90 m, Zé Luís Couto, Zé Alberto Catharino e Maria Cintra Monteiro, a primeira mulher a surfar na Bahia. De vez em quando atropelávamos um banhista e era aquele sufoco. Baixava a polícia e tínhamos que fugir. Daí ficávamos umas duas ou três semanas sem ir à praia, depois, lá estávamos nós de novo. Naquela época, o surf chegou até a ser proibido em algumas praias do centro, mas depois da Pituba, a polícia nem ia", relembra Jorge.

Nesta época, apareceram as pranchas de isopor, que nós pintávamos em cima e usávamos camisas para não assar a barriga e improvisávamos quilhas de madeira para dar direção e conseguir ficar em pé ou ajoelhado. A galera era composta por Deca, Jorge Chaves, Paulo, Henrique, Lula Aragão, Fernando Bahia, Érico, Frederico, Sallenave, meu irmão Miguel e a galera do Alto da Alegria e do Alto da Sereia, que usavam nossas pranchas emprestadas." conta Lapo.

Em 1965 foi o primeiro grande "boom" do surf, quando várias pessoas apareceram com prancha ao mesmo tempo. "Jorge e Alberto Muller venderam o pranchão para Tourão dando início a turma de Amaralina. No Rio Vermelho, Jorge Hupsel, Câmara e Fredão - este com apenas 10 anos - compraram outro pranchão na mão de um gringo que visitara a Bahia. Também apareceram outros pranchões na Pituba e na Barra. A Praia da Onda era a praia da moda.

Campeões do ano 1976 Tourão, Jorge e Almir Moraes, Alex Cunha Guedes, Champrão, Leonardo, Carioca, Nazareno, Ernani, Mário e Carlos Suarez, Mário Câmara Filho, Zé Alberto Catharino, Zé Valter, Jorge Hupsel, Roberto Fadul, Tico e Deraldo Fernandez, Fredão, Lapo Coutinho, Zé Estanque, Menandro, Cucá Fernandez, Vevé, Ramilton, Buga e Gueleis, foram a espinha dorsal do surf baiano e criaram um novo estilo de vida", relembra Lapo.

Os principais points dessa época era no Rio Vermelho, a Praia da Onda, Torrefação e Praia da Paciência; na Barra, o Farol, Espanhol e Barravento; na Pituba, o Havaizinho e a Praia das Lavadeiras. Os melhores daquela época eram Tourão, Alex, Jorge Hupsel e Gueleis. A maior dificuldade da galera ainda era a falta de contato com material de ponta, como também a falta de cordinhas, que ainda não existiam, nessa época.

Samir Em 1966 surgiu a primeira fábrica de pranchas da Bahia e do Brasil, a Hati do "seu" Gabriel Moraes e seus filhos Jorge e Almir e o surf na Bahia explodiu. Os primeiros ídolos do surf começaram a aparecer nessa época. "No início, Zé Alberto Catharino e Alex Cunha Guedes eram considerados por quase todos, os melhores. Alex tinha um estilo mais clássico e mais atirado e Zé Alberto tinha um estilo mais solto, com mais manobras e com pranchas menores. A turma da Pituba puxava para Alex e a do Rio Vermelho para Zé Alberto. Almir, Jorge, Tourão, Zé Valter, Champrão e outros eram superespeitados e considerados big riders pois, quando o bicho pegava, estavam sempre no mar", relembra Lapo.

A Fábrica mais marcante foi a Musa, que trouxe o profissionalismo, tanto em termos de fabricação como também em termos de organização de campeonatos. "O saudoso Juarez, Lapo e Bráulio, proprietários da Musa, foram os primeiros a fazer pranchas boas na Bahia. Juarez era um dos poucos que mais se aproximavam do estilo gringo, tanto no surf como no shaper das pranchas", comenta Hilton Hissa.

Bráulio nos anos 70 Os primeiros eventos de peso do surf baiano foram promovidos pela Musa em parceria com a Sunsurf, uma importante loja de surf, de propriedade de Almeida e Fred Biscaia, que ficava entre a Praia da Onda e a Praia da Paciência. Os eventos aconteciam na Praia do Pescador e vinham juizes do Rio de Janeiro, elevando o surf da Bahia a um dos pólos competitivos do país na época", relembra Lapo Coutinho.

"Em 1972 foi fundada a Associação Baiana de Surf, a primeira associação de surf da Bahia, cujo primeiro presidente foi Nazareno e eu, com apenas 19 anos, fui diretor de eventos. Essa associação realizou um campeonato por ano e o primeiro evento foi em 72, na Praia da Onda, em Ondina, tendo encerrado suas atividades dois anos depois, em 74", conta Carlos Moraes.

Hilton Lessa Nessa época, apesar de poucos, os campeonatos de surf atraiam muita atenção na cidade. "Depois da Praia da Onda, veio a fase da moda da Praia do Pescador (Aeroclube), para realização de campeonatos de surf. Isso foi motivado pelas excelentes ondas e pela facilidade proporcionada pelo Aeroclube que servia como base de apoio e palanque. Popó Avena, da Pituba, era um dos melhores, principalmente em ondas menores e Celso era um dos melhores quando o mar crescia, inclusive, ganhando o primeiro campeonato com ondas grandes. Foi quando tivemos o primeiro Intercolegial, onde as verdadeiras feras do surf baiano começaram a aparecer. Eram garotos criados por nós e surfavam desde os três anos com pranchas de fibra. Entre vários eventos, tivemos um com uma final inesquecível entre Ricardo Abubakir e Hilton Issa, Rogério, relembra Lapo.

Foi nessa fase que a organização dos campeonatos deu os primeiros passos rumo à profissionalização. "Apos a realização dos primeiros eventos, sentimos a necessidade de criar uma federação, o que foi feito em 76. Nós fundamos a primeira federação de surf do Brasil, a Federação Baiana de Surf. A intensão era conseguir mais status e possibilitar a incorporação da parte comercial ao esporte. Por traz da FBS estava a Sunsurf, que foi a primeira loja de surf da Bahia e era de propriedade de Fred Biscaia e Luís Carlos de Almeida, que era o presidente da FBS. A FBS funcionou muito bem até 79." relata Carlos Moraes.

Celso Aguiar Nessa época, o surf já era o esporte da moda e muita gente enfrentou a arrebentação para não ficar de fora da onda do momento. "A turma da Pituba era formada pelos irmãos Abubakir, os Moraes, os Fernandez, os Grimaldi, os Havena, os Barrosos, Marcelo Berberth, Guiga, Carloca, Dodge, Fred, Vital, Audi, Sérgio Pará, Negão Lopes, Bosco, Titula, Ivinho, Celso, Tony Villas Boas, Diogo, Adley, Anísio, Lacerda, Flávio, Alberto, Dentinho, Jaquinho. No Rio Vermelho tinha Zé Mário, Jorge, Bob, Maurício, Cako, Duto, Alberto, Sallenave, Cláudio Castro Lima, na Barra tinha Geo, Kiko, Claude, Júnior, Mário Marola, os irmãos Suarez, Dark, Cláudio, Buriti, Paulo Magulu, Oldomir (Mio) Pisani, Eduardo Maluquinho, os irmãos Balalai (Evaldo e Evandro) Miquita, Bandido, Dimitrius, Cordeiro, Lapa, Paulista, Dirceu, Joãzito, Paulão, Stolz, Corró e Nilsinho, o Kid Morangueira. Muitos desses moravam no centro, mas a Barra era o ponto de encontro dessa galera. No Morro Ipiranga tinha Dudu, Neinho, Luciano Marback, Beto Góes, Maneco e Saback, em Itapuã Sávio, Zuza, Gaúcho - o primeiro kneeboard da Bahia - Guilliam e o pessoal da Musa, Darinho e Roger e muitos deles ainda enaltecem o nome do surf baiano em ondas grandes", relembra Lapo.

Guiga Matos Vieram os anos 80, e com eles a primeira grande crise do surf brasileiro. O esfriamento dos campeonatos de surf prejudicou uma geração de atletas talentosos como Guiga Matos, Fábio Resende, Rogério Rezende, Marcos "Boi" Pacheco, Olímpio Batista, Marcos "Nariga", Neidson de Jesus, Ricardo BC, Marcos Lessa, Auro Pisani, Lito Júnior, Ricardo Jones, Rogério Pacheco, Ricardo Abubakir, César Batinga, Manuel Fernandez, Robertinho "de Jandira" Gomes, Cláudio Costela, Vinícius Bucão, Railton Lemos, Dentinho, Samir Silva, Kiko "Dragão", Roger, Joe Silva, Aloísio "Lôro", Fernandinho, Leo, Cláudio Chiarioni (Frippo), Paulo "Paquera", Jairo e os irmãos Guiga , Lesly Scott e Roninho.

Em 1981 foi legalizada a Associação de Surf de Salvador, a ASS, cujo presidente fundador foi Cly Loile. A ASS foi a 1ª associação com documentação registrada e a 1ª a captar patrocínio de grande empresas privadas a exemplo do Banorte e a conseqüência foi de melhores eventos.

Esses eventos, na minha opinião, fizeram revitalizar o surf baiano em nível de organização. Foi a partir deles que o pessoal começou novamente a pensar em organizar campeonatos de surf na Bahia. Vale a pena destacar também o trabalho de cobertura dos jornais 'Qual o Lance', da Marcinha Brandão e 'Expresso do Surf', de Tadeu Abelha, que na minha opinião, foram fundamentais para a revitalização do surf naquele período negro", revela Guiga Matos.

No final da década, mais precisamente a partir do I Bahia Pro Contest, realizado em 87, o surf tomou um novo rumo, desta vez, impulsionado por pessoas que queriam surfar e não estavam nem aí para o que acontecia com as manias e modas da juventude brasileira. Veio a era do profissionalismo, quando aconteceram, na Praia de Stella Maris, as primeiras etapas do Circuito Brasileiro Profissional, que aconteciam pela primeira vez, com a Bahia fazendo parte do calendário, com o Fico Surf Festival.

O Fico Surf Festival, patrocinado por uma empresa de surfwear paulista, teve a maior estrutura de palanque que contava, inclusive, com arquibancada já vista em um campeonato de surf na Bahia e no Brasil.

Guiga Matos lembra que "na Rádio Transamérica, tínhamos um programa sobre o surf local com a apresentação do querido Emerson José hoje vereador da nossa cidade".

Em 88, Jojó de Olivênça ganhou o primeiro título de Campeão Brasileiro para a Bahia. "Naquela época o estado tinha muitos valores e se outros atletas, como o próprio Olimpinho, que hoje está conseguindo bons resultados no longboard nacional, estivessem ido morar na região sul, que tinha a maioria dos campeonatos, sem dúvida, seria um dos maiores destaques do surf brasileiro, hoje em dia. Quem sabe até mais do que Jojó", afirma Guiga.

Em 1989, Tatiana Goulart praticamente reativou a Associação de Surf de Salvador (ASS) e organizou o primeiro Circuito Baiano de Surf Profissional, com a entidade sendo reconhecida pela ABRASP (Associação Brasileira de Surf Profissional) como a representante do surf baiano e responsável por indicar o campeão baiano profissional. O título de Campeão Baiano de Surf.

Profissional passou a ser decidido não mais em um único evento. Olímpio Batista, o Olimpinho, de Amaralina, levantou o caneco e se tornou o primeiro Campeão Baiano de Surf Profissional.

Hoje o surf baiano é um esporte organizado, com a sua Federação funcionando em perfeita harmonia com as associações e promovendo competições de âmbito local e Nacional, tendo inclusive como resultado da sua história o campeão mundial Armando Daltro (Mandinho).



A História do surf em Itacaré


(por Guiga Matos)

A grande Meca dos surfistas baianos, Itacaré nasceu para o surf com a ida de surfistas de Salvador e Ilhéus em meados dos anos 70 para lá. Todos eles imbuídos do espírito de aventura e sonhos próprios daquela década. Dirceu e Pauletti de Ilhéus, Cly Lolly, Ronaldo Fadul, Nilsinho Cabeludo ou Kid Morangueira, Miquita, Paulinho Magulu, Jorge Pisca, Gringo, Corró, Tadeu Abelha, Alberto Zumbi e poucos outros de Salvador, guardaram durante anos o paraíso baiano do surf. Para a grande maioria que não conhecia o lugar, Itacaré não passava de uma localidade de pescadores de difícil acesso e que talvez desse ondas. Não havia razão de se aventurar em 57km de estrada de barro esburacada. Mas para a galera que já freqüentava os picos, Itacaré era o verdadeiro sonho transformado em realidade. Não era só pela ondas e também pela hospitalidade do lendário seo Joaquim (que Deus o tenha) em sua casinha na praia d o Costa, mas também pelos intermináveis banhos de cachoeiras, praias desertas, mata atlântica intocada, céu e lua inigualáveis devido a ausência de luz elétrica, comida farta e barata. Enfim, tudo que qualquer ser humano normal pode almejar: PAZ.

Ronaldo Fadul O tempo foi passando, mais e mais pessoas começaram a freqüentar Itacaré, a boa nova ia se espalhando, o crowd aumentando e... o progresso chegou. O ainda paraíso do surf baiano foi rapidamente transformado em Surf City: campeonatos, crowd, infra-estrutura turística, Luz elétrica, telefones, facilidade de acesso e tudo mais que qualquer município tem direito.

O "tempo é o senhor da razão" esta triste frase já pronunciada por uma certa pessoa de nome impronunciável, retrata como o tempo tratou de desfazer os sonhos de uns e fazer os sonhos de outros tantos. Itacaré hoje, como dito no parágrafo anterior, uma importante cidade para o surf moderno: Bons surfistas locais com destaque para o filho de Fadul, Orígenes e Ongos Araújo; surf lanche, surf camp, surf trip, surf surf.

Itacaré, graças a Deus, dá altas ondas e a natureza com suas matas, rios e cachoeiras insistem em resistir a tal da razão.

O tempo foi passando, mais e mais pessoas começaram a freqüentar Itacaré, a boa nova ia se espalhando, o crowd aumentando e... o progresso chegou. O ainda paraíso do surf baiano foi rapidamente transformado em Surf City: campeonatos, crowd, infra-estrutura turística, Luz elétrica, telefones, facilidade de acesso e tudo mais que qualquer município tem direito.

O "tempo é o senhor da razão" esta triste frase já pronunciada por uma certa pessoa de nome impronunciável, retrata como o tempo tratou de desfazer os sonhos de uns e fazer os sonhos de outros tantos. Itacaré hoje, como dito no parágrafo anterior, uma importante cidade para o surf moderno: Bons surfistas locais com destaque para o filho de Fadul, Orígenes e Ongos Araújo; surf lanche, surf camp, surf trip, surf surf.

Itacaré, graças a Deus, dá altas ondas e a natureza com suas matas, rios e cachoeiras insistem em resistir a tal da razão.



Ilhéus, 30 anos de surf.


(por Ader Oliveira)

O "esporte dos reis" sempre teve fortes laços com o município ilheense. Os 92 km de costa marítima já revelaram dezenas de surfistas talentosos. Tudo começou no verão de 1973, quando Washington Soledade comprou uma prancha de madeirite em Salvador.

Dois meses depois, foi a vez de Cezar Falcão começar a freqüentar a praia da Avenida junto com o irmão Edgar, que não levou o esporte adiante. Paulo Campos, o "Paulety", decidiu fazer companhia ao amigo Washington e também se apaixonou pelo surf.

Em 1975, Cezar abriria a Ressaca Surf Shop, primeira loja de surf na cidade. A Ressaca "passou" alguns anos depois, mas Falcão promete que em pouco tempo ela estará de volta.

Os pioneiros eram bastante discriminados quando começaram a difundir o esporte na cidade. "O padre pregava nas missas que estávamos deteriorando a juventude e que éramos exemplos de vagabundos e drogados. Ele queria que a gente fosse expulso da cidade", revela Cezar Falcão.

O surf começou a evoluir na cidade quando o hoje jornalista Dirceu Góes ganhou de seus primos de Santos (SP) a primeira prancha de fibra de vidro na história do surf ilheense. Feita com um material muito mais leve, possibilitando a execução de manobras na onda, as pranchas de fibra de vidro modernizaram o esporte em todo o mundo.

Logo os talentos começaram a despontar. Em 1978, Zé Marco tornou-se o primeiro atleta de Ilhéus a conquistar o campeonato baiano. Entrou a década de 80, talvez a época que mais tenha marcado o surf no Brasil e no mundo.

A geração daquela época foi inspirada pelos filmes "Menino do Rio" e "Garota Dourada", que tinham como personagem principal o ex-cabeludo André Di Biase, representado nas cenas de surf pelo carioca Cauli Rodrigues.

Embalados pela trilha sonora destes filmes, os jovens daquela época revolucionaram a maneira de surfar. "Foi ali que começaram manobras como aéreo, 360º, batida rock'n roll, floater e algumas loucuras que na época nem tinham nome", recorda Gabriel Macedo.

Vieram surfistas como Jojó de Olivença, os irmãos Adalvo e Jânio Argolo, Barrão, Marcos "Secão", "Homem Velho", "Dão", Alípio "Johnnys", Aurélio B. e "Nêgo" Adílson, que tinha um dos surf mais radicais de Ilhéus e talvez até do Brasil, já que recebeu grandes elogios do melhor surfista do Brasil naquela época, Picuruta Salazar.

"A maioria destes surfistas começou no final dos anos 70 e serviu de referência para a nova geração, pois era um privilégio para muitos começar a pegar onda tendo ao nosso lado atletas de nacional", comenta Gabriel.

No primeiro evento realizado nas ondas do Backdoor, em Olivença, uma final histórica. Jânio Argolo e o santista Picuruta Salazar se enfrentaram em condições épicas, com altas ondas e um grande público prestigiando a competição.

A cada onda surfada, os finalistas saíam pela Prainha e voltavam ao Backdoor correndo pelas pedras, ovacionados pela platéia e autoridades presentes. Jânio não conseguiu vencer, mas tornou-se o herói da competição, já que honrou a cidade de Ilhéus surfando pau a pau com o melhor surfista do Brasil. Em meados da década apareceram alguns talentos que marcaram uma das épocas mais concorridas do surf ilheense, já que disputavam de igual para igual com os mais velhos no esporte: Duda Barreto, Brício Argolo, Kleber "Culão", Gabriel Macedo, Marcos "Gaiá" Leal e Arthur "Pitú" Leal.

Tempo de boas e grandes ondas era comum. "Quem estava aprendendo a pegar onda demorava mais de um mês para conseguir entrar no mar", revela Brício. Em 1983, foi fundada a Associação Ilheense de Surf (AIS), que serviu como uma grande alavanca para o surf baiano. No primeiro ano de fundação, tivemos grandes eventos e a presença de grandes nomes do surf brasileiro, como Picuruta Salazar, Taiu Bueno, Nélson Ferreira, Almir Salazar, Bito, Kizumba, Magnos Dias, Davi Huzadel, Paulo Kid e os nordestinos Sergio Testinha, Tadi, Zezito Barbosa, Pereira e Carlos Burle, além da galera de Salvador, que tinha como destaques Hilton Issa e Guiga Matos.

Em 86, teve início um dos melhores e mais organizados circuitos municipais do país, composto de cinco etapas. O campeão foi o então jovem Brício Argolo, com Gabriel Macedo em segundo, Jojó de Olivença em terceiro e Adalvo Argolo em quarto.

Adalvo Argolo O Circuito teve como grande incentivador e organizador o incansável Sergio Leal*, o "Nadador", que levava o surf competição muito a sério. No mesmo ano, a AIS promoveu a entrega do "Oscar do Surf" para várias autoridades do município, como o prefeito Jabes Ribeiro e a primeira-dama Adriana Ribeiro, eleita a madrinha do surf, além de outras figuras importantes da sociedade Ilheense que incentivavam a prática do esporte.

"Esta festa foi mesmo inesquecível, pois tivemos a honra de assistir um vídeo em formato super 8 do Espigão quebrando de 8 a 10 pés, com a geração dos anos 70 se atirando numas morras que à primeira vista lembravam o Havaí", conta Gabriel.

Segundo o atual presidente da Associação Ilheense de Surf (AIS), Aderino França, o "Oscar do Surf" estará de volta no final do Circuito Ilhéus 30 anos de Surf.

No final dos anos 80, outra geração muito talentosa começava a despontar. Flávio Duarte, Juci Santos, Jaime Quirino, Pincel, Zé Pereba e os irmãos Bruno e Wilson Nora davam seus primeiros passos nas competições. Rodrigo Barreto e Mauricio Torres foram dois dos melhores talentos que já surgiram em Ilhéus. Maurício era um surfista nato. Com apenas um ano de prática, já surfava no mesmo nível dos mais experientes. Ele venceu alguns dos campeonatos mais importantes de Ilhéus, como a Festa do Cacau e Inter Brasil, eventos que contavam com a participação dos melhores surfistas brasileiros.

E Ilhéus não parava de produzir novas safras no surf. No início dos anos 90, surfistas como Guigão Nora, Plínio Torres, Jerônimo Bomfim, Flávio Costa, Sandro Grossinho, Mauricio Weyll, Jaime Quirino, Sânio Carvalho*, Batata, Charles Costa, Júnior Bohana, Charles Chaves, Ivan de Olivença, David do Skate, Marcelo Alves, George Bonfim e Quibinho deram continuidade ao processo de evolução.

Esta década teve uma das melhores diretorias à frente da AIS. Dirceu Góes e Paulety Campos fizeram um excelente trabalho no surf ilheense, realizando diversos eventos de alto nível, como o Seaway Nordeste, em 94, que levou mais de cinco mil pessoas à praia de Batuba, em Olivença, e ganhou grande destaque na imprensa nacional.

O tempo passa, mas o surf ilheense segue produzindo grandes atletas. A nova geração vem conquistando muitos títulos pela Bahia afora. Dennis Tihara, Bruno Galini, Rudá Carvalho, Flávio Galini, Arthur Maroto, Thiago Silva e Max Roosli, de apenas 10 anos, são os maiores destaques do surf amador ilheense no momento.
Créditos Fotos:
Guiga Matos | Tom Almeida | Daniela Burgos | Gabriela Brussel